Distratos atingem grandes e insegurança jurídica sobe

Maiores incorporadoras do País garantem que problema vai além da crise econômica e cobram do governo ações que tornem uniforme a posição da Justiça sobre o tema

São Paulo – Frente à uma crise mais resiliente que o esperado, as gigantes do ramo da construção sentem na pele o impacto da ruptura de contratos de venda de imóveis. Sem um padrão nacional da Justiça com relação ao tema, a previsão é que o enfraquecimento do setor siga nos próximos meses, e o risco de não sobreviver na retomada econômica se acentue.

A crise vivida pela PDG Realty, uma das maiores do mercado, não é um caso isolado no setor da construção. Assim como ela, outras companhias de médio e grande porte estão operando no vermelho. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), Luiz França, o prejuízo financeiro do setor não se resume à recessão, mas ao aumento dos distratos, sobretudo, no segmento de médio e alto padrão (MAP). “Precisamos de emprego e taxa de juros abaixo de dois dígitos, mas também tem a questão regulatória, porque hoje as incorporadoras estão arcando com todo o custo dos distratos”, diz.

De acordo com estudo da Fipe e da Abrainc, em 2016, o custo variável de comercialização das 44,23 mil unidades distratadas foi de R$ 1,1 bilhão, ou seja, 10% do Valor Geral de Vendas (VGV). “O montante foi superior ao prejuízo líquido total das incorporadoras de capital aberto associadas à Abrainc, de R$ 717 milhões. Não é o único fator, mas será que o prejuízo não poderia ter sido menor se não houvesse o problema dos distratos?”, indaga o economista da Fipe, Eduardo Zylbertajn.

Segundo o economista, sem regulamentação para o tema, o futuro das construtoras está comprometido. “No curto prazo, o prejuízo pode ser maior e a questão é qual a capacidade delas de aguentar”. No longo prazo, ele acredita que o aumento do risco do investimento provocado pelo distrato impacte tanto a disposição de investidores de lançar imóveis de médio e alto padrão, quanto os preços dos empreendimentos – seja pelo risco alto ou pela diminuição da oferta, caso a demanda retome.

Mostra desta tendência é o volume de lançamentos do segmento MAP. De acordo com o indicador Abrainc/Fipe, divulgado ontem, em fevereiro de 2017, sobre um ano antes, os lançamentos caíram 10,1%, ao mesmo tempo que as vendas foram 17,9% menores.

Desempenho atual

Ainda segundo os dados mais recentes do indicador, em janeiro e fevereiro de 2017, foram lançados 4,015 mil unidades, queda de 13,4% frente ao mesmo período do ano anterior. No acumulado dos últimos 12 meses terminados em fevereiro, os lançamentos totalizaram 69,180 mil unidades, alta de 7,3% sobre o período precedente.

As vendas por sua vez, totalizaram 13,779 mil unidades nos primeiros dois meses do ano, aumento de 6,9% ante janeiro e fevereiro de 2016. No acumulado dos últimos 12 meses, foram 104,718 mil, retração de 4,9% ante o mesmo período do ano anterior.

A oferta de imóveis no mês de fevereiro era de 118,749 mil unidades, sendo que no trimestre (terminado em fevereiro) foram vendidas 17,6% da oferta. Desta forma, a estimativa da entidade é que a atual oferta seja suficiente para os próximos 17 meses. “Um ano ainda é uma medida confortável, mas um ano e meio está acima do ideal”, diz Zylbertajn.

Fonte: DCI